Olhou pela janela e o vento frio atravessou a fresta da cortina, tocando sua pele como um aviso. Era abril, mas dentro dele ainda era agosto – aquele agosto pesado, meio úmido, que insiste em não passar. Tentou acender um cigarro, mas a chama do isqueiro falhou três vezes antes de pegar. Pensou que talvez fosse um sinal, desses que o universo manda quando a gente não quer escutar. Acendeu mesmo assim.
Lá fora, a cidade seguia seu fluxo indiferente. Carros apressados, gente distraída, buzinas cortando o silêncio da noite. Tanta pressa pra chegar onde? Ele não sabia mais se queria chegar a algum lugar. Ultimamente, tudo parecia um grande intervalo entre o que foi e o que nunca chegou a ser. A xícara de café esquecida na mesa, o livro aberto na mesma página há dias. Pequenos descuidos que denunciavam o caos interno.
Lembrou-se dela – sempre ela. Do jeito que ria jogando a cabeça para trás, das palavras cortantes ditas entre tragos e goles de vinho barato. Do silêncio que veio depois, pesado como pedra no bolso. Sentiu um gosto amargo na boca, não soube dizer se era da lembrança ou do cigarro. A verdade é que algumas pessoas se tornam uma estação inteira dentro da gente. E, quando vão embora, levam junto o verão, o outono, tudo.
Deu uma última tragada e apagou o cigarro na beirada do cinzeiro já cheio. Precisava dormir, mas sabia que o sono não viria. Não nessa noite. Olhou para o teto e sentiu um cansaço profundo – desses que não é físico, mas que pesa nos ombros como se fosse. Amanhã, talvez, o vento soprasse diferente. Talvez abril chegasse de verdade. Talvez ele, enfim, conseguisse seguir.