terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Valia a pena - final.

Andava pelos corredores da Unb angustiado, sua cabeça fervilhava, zilhões de pensamentos e dúvidas. Em cada face feminina tentava enxergar o rosto da moça, andava muito inquieto. Agora isso vinha refletindo em sua rotina, não prestava atenção na aula, vivia mergulhado na inércia. Abria todos os dias o bendito Icq e nada, nenhuma mensagem, isso o entristecia.

Parou em frente ao espelho e viu seus olhos tristes e fundos, não entendia como alguém que não o conhecia tinha tanta influência assim na sua vida. Nunca ninguém havia se preocupado com ele, sentiu-se importante e ao mesmo tempo acuado. Imaginou que poderia ser algum trote, afinal era comum os nerds da escola serem zoados.

Em seus 19 anos de vida não havia desobedecido a mãe, entrado em qualquer confusão. Nunca havia se arriscado e pensou que essa seria a chance de quebrar a rotina. Encheu-se de coragem e destemido sentou-se em frente ao computador. Imaginou versos e poesias para escrever, mas como não a conhecia resolveu apenas cumprimentá-la.

“Moça quero ver o seu sorriso, posso?”

Quando viu já havia enviado. Será que se precipitou demais? Não havia mais jeito de voltar. Esperou por algumas horas e nada de resposta, infelizmente dessa vez ela não estava offline. Desligou o computador e foi dar uma volta na rua, quando abriu a porta teve uma grande surpresa: havia uma rosa salmon e um bilhete que dizia:

“Verás o meu sorriso domingo no Teatro Nacional, sala Villa-Lobos às 20:30″.

Não acreditou no que acabara de ler. Inacreditável, exclamou! Nunca havia recebido um bilhete, ou qualquer coisa com tanta significância. Tremia de emoção, não sabia o que fazer, gritou para explodir toda a emoção que estava aprisionada no peito. Pensou: será um encontro? Meu Deus eu tenho um encontro!

A ansiedade tomou conta de sua vida durante todo o resto da semana, todo o dia pensava na tal moça misteriosa e em seu “encontro”. Ouviu comentários que haveria uma apresentação de um musical, então dois dias antes do combinado recebeu por correio o convite, melhor lugar. Alugou então uma roupa de gala, apesar de se achar muito careta, mas o pai havia avisado que lá estariam as pessoas mais baladas e ricas de Brasília a nata da sociedade. Arrumou-se comprou um buquê de rosas salmon e dirigiu-se ao local.

Chegando ao local sentiu-se deslocado. Sentou-se e ficou esperando sinal de vida da moça, imaginava que em algum momento ela sentiria ao seu lado. Esperou, esperou e quando de repente uma senhora e um rapaz sentaram ao seu lado, ficou triste e imaginou que havia sido esquecido. Levantou-se para ir embora, mas hesitou, pois as luzes desligaram. O espetáculo iria começar!

As cortinas abriram-se e de repente alguns jovens entraram encenando a peça Romeu e Julieta. Eles cantavam e emocionavam o público que não se continham e ia às lágrimas. Ele nunca havia visto algo tão belo em toda a sua vida, nunca havia visto uma moça tão bela também, parecia um anjo, uma santa. Ela segurava uma rosa salmon em sua mão direita enquanto cantava e em um momento de interação com o público ela jogou a rosa em sua direção.
Arregalou os olhos e não pode acreditar. Estava sonhando, pensou.
Enquanto ela cantava, ele viajava em doces devaneios. A voz tão angelical, parecia niná-lo. A cada ato seu coração anseiava pelo encontro, quando estaria frente a frente.
Ao fim da peça, enquanto todos a rodeavam cumprimentando-a pela bela atuação, ele observava de longe. E os olhos da moça fitavam-no com receio e ao mesmo tempo desejo. Desejo de falar com ele, de apresentar-se.

Finalmente ele decidiu aproximar-se e ela não pode dizer outra coisa a não ser:

“Beije-me!”


O primeiro beijo de suas vidas. O que ele havia guardado para a mulher de sua vida.
Apaixonou-se pela santidade da moça, pelo jeito recatado de ser e pelo sorriso envergonhado que lhe falava milhões de desejos.
Escrito aos 16 anos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Valia a pena - Parte I.

Tão estranho era aquele sujeito. Parecia até que vivia em um mundo diferente, um lugar inacessível a outras pessoas. Não conversava com ninguém, evitava ao máximo contato com as pessoas que o cercavam. Na escola era calado, ficava em seu ‘mundinho’, parecia não se importar com os colegas.

O rapaz cresceu e passou em 1º lugar no vestibular da Universidade de Brasília. Para ele isso não era grande coisa, já que ele mesmo dizia ter estudado tanto tempo para isso. Todos o achavam estranho, afinal estavam no 4º semestre de psicologia e nada de aproximações. Nada de trabalho em grupo, era fechado mesmo. A vida fora da universidade não era muito diferente ele se limitava apenas a dizer ‘oi’ e ‘tchau’.

Traumas na infância? Talvez, mas como saber se ele não falava com ninguém? Tímido não era, tinha uma facilidade imensa em se expressar quando necessário. Um amor talvez seria o ideal para livrá-lo da solidão, mas como encontrar alguém sem sair de casa?

Mas todos nós estamos predestinados a encontrar alguém, ele também teria uma paixão a sua espera.

Certa noite chegou em casa depois de horas na biblioteca lendo mangás, isso mesmo, mangás. O rapaz não era tão velho, ainda era moço, tinha apenas 19 anos. Olhou para o computador e decidiu ligá-lo. Abriu seu e-mail e viu que recebera uma mensagem que dizia o seguinte:

“Sempre quis me aproximar de você, mas tinha receio. Então resolvi mandar-lhe esse e-mail, se quiser conversar comigo estarei no icq. Meu uin é ‘xxxxxxx’.”

Pensou quem seria essa moça que por ele havia se interessado. Ninguém em mente. Fechou o e-mail e desligou o computador, porém, aquilo não o deixava dormir. Pela primeira vez alguma coisa o perturbava, então depois de muito relutar decidiu ligar novamente o computador. Não tinha icq, pois não tinha amigos e usava o e-mail somente para saber as novidades de seus mangás, filmes e livros preferidos. Entrou na página do icq e fez uma identidade para ele, pegou o número da moça e a adicionou. Ela não estava on-line, esperou por mais algumas minutos, horas talvez e desligou. Do outro lado da cidade lá estava ela em modo invisível se lamentando por não ter falado com o rapaz que tanto lhe despertava desejos e até mesmo compaixão. Escreveu a ele off-line:

“Mas uma vez meu medo me impediu de chegar até você.
Não entendo o porquê de não ter me aproximado, já que você se mostrou interessado em saber quem sou.
Sinto muito”


No outro dia ele leu e ficou pensando se deveria ou não responder. Alimentar esperanças não fazia sentido, afinal não a conhecia e tinha dúvidas se queria ou não saber realmente quem ela era. Mas ele precisava acabar com aquela incerteza que o estava incomodando há dias. Respondeu então e para sua surpresa esta respondeu saindo do modo invisível.

Conversaram por horas e aquela moça, pela primeira vez em sua vida, despertou algo que estava adormecido: uma paixão. Foram meses teclando, ele já sabia todas as manias e gostos da moça. Estava até mais solto, mais alegre. Sabia que ela estudava na mesma universidade, mas nunca falaram em se conhecer, talvez perdesse o encanto depois disso. Ele pensava que se ela o conhecesse realmente não iria querer continuar a teclar com ele, levando assim a única coisa boa que ele conquistou em seus 19 anos de vida.

Escrito aos 16 anos.
Continua.

Ps: Post da Fê para mim. Leiam. Amo-te, gata!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Romeu & Julieta.

Eu sabia que nossos nomes eram associados escondido. E eu me deliciava com a hipótese de pertencermos de fato um ao outro. E você me alegrava com os teus poemas explícitos, com a tua gargalhada alta e gostosa e com todos os seus devaneios e assuntos que não condiziam com a nossa realidade.

Tu gostavas de falar de política para me irritar, ensaiava piadas para alegrar-me e eu sorria abertamente. Tu desenhavas o meu melhor sorriso, sem saber que não era necessárias falácias, pois tudo o que havia dentro de mim já era teu.

E eu, moça bonita, lia aquele romance que tu insistias em decorar as falas. Dizendo-me, que maior amor não houvera no mundo. Romeu e Julieta tiveram apenas um flerte, querida. Se tu soubesses o que há dentro de mim para ti, teria plena convicção disso que te afirmo. E hoje, tenho plena certeza disso que te falo: eu te amo. E os meus lábios desejam os teus como o orvalho se entrega ao amanhecer, às folhas, as flores silvestres. E os meus braços te esperam como se soubessem que o teu corpo se encaixaria perfeitamente em meu abraço.

Mas, amada, o telefone insiste em chamar. A tua voz do outro lado diz apenas que devo deixar um recado após o Bip, e minha respiração ofegante não deixa que eu inicie qualquer frase. Meu coração sempre fora teu, amor. Embora, não estivesse claro em mim e então eu deixei você partir.

Eu sei que já é madrugada, que o teu telefone insiste em tocar. Atenda. Imploro-te. A tua janela está acessa, eu te vejo a silhueta daqui, por que insistes em dar voltas e voltas em teu apartamento? Basta arrancar do gancho e não ensurdecerá. Tudo bem, amor. Amanhã será um novo dia, ligo para você de outro telefone que não reconheça o número. Sim, não vou desistir de você.
"Para Poliane Marques que riu
de meu choro desesperador ao assistir
Romeu & Julieta aos 16 anos."